Pensar por Escrito

Francisco Merçon é mestre e doutor em Semiótica e Linguística Geral pela Universidade de São Paulo, foi Editor da revista Estudos Semióticos, do Departamento de Linguística da USP. Atualmente é editor e colaborador do Caderno Mil Montes. Neste blog são postados os artigos publicados originalmente no jornal A Palavra (Alegre-ES) e no Caderno Mil Montes (Vitória-ES).

A Praia*

Suponhamos que você queira sair de casa. O dia está perfeito. O sol brilha no azul do céu, o vento sopra uma brisa suave que faz diminuir a sensação de calor. E melhor, a praia fica logo ali, a algumas quadras de onde mora. Você precisa apenas se animar, levantar-se da cama, tomar café, comer o pão dormido com a rapa de manteiga que ainda resta no pote. Depois basta vestir a roupa apropriada, e rua. Faz alguns meses que sua vida se resume a essa possibilidade iminente de ir à praia.

Desempregado, já não lhe resta mais muito dinheiro para as economias domésticas, os amigos o abandonaram e a família o ignora completamente. Sem se alimentar direito, está prestes a perder completamente a memória. Mas, ainda assim, permanece essa possibilidade iminente. E você decide realizá-la.

Saindo de casa, ao cruzar a praça principal do bairro, você se lembra da banca de jornal na esquina, do jornaleiro, que, mesmo sem conhecê-lo, o atende bem, doando-lhe exemplares de jornais do dia anterior, tendo sempre o cuidado de selecioná-los entre os jornais mais importantes do país. Desse modo, com vinte e quatro horas de atraso, pode-se dizer que você é um sujeito “quase em dia” com as principais notícias. Mas, dessa vez, você seleciona apenas os suplementos literários, lançando ao lixo todo o resto, os faits divers, a política, a economia, a saúde, o entretenimento, a culinária.

Com os volumes debaixo do braço, finalmente segue em direção à praia. No caminho, alguns rostos conhecidos, ainda que anônimos. É bom que sejam anônimos. Isso lhe poupa um esforço de cumprimento maior que o simples olhar ou a simples inclinação da cabeça. Estão retornando da caminhada matinal. A combinação de cores em suas roupas, ao contrário de seus passos compassados e do paralelismo de suas marchas, não lhe sugere nenhum padrão.

Você agora se encontra exatamente na última quadra que antecede a praia, parado na esquina, diante da faixa de pedestre. O mar desponta no horizonte. O brilho tremeluzente das águas refletindo a luz do sol o lança num estado de quase êxtase. A brisa corta-lhe todo o corpo, antecipando a experiência com as ondas do mar a banhá-lo. O corpo arrepia.

Por alguns instantes desaparece a avenida movimentada que se interpõe entre você e o mar. Os ruídos dos carros e das pessoas emudecem.

De repente, o telefonema. Você se lembra de que espera uma resposta. Mais do que ter o contrato assinado, você parece antes desejar ouvir o próprio nome sendo pronunciado por alguém, ainda que seja ao telefone. Nome que você mesmo quase esqueceu. Não pode perder essa chance. Talvez a última. Mas sem que você se dê conta, esse contratempo é antes resultado de uma falha da razão. O telefonema é apenas uma simples lembrança de origem remota. Data de mais de dez anos, pelo menos. A memória, ainda que falha, cuidou de preservar esse episódio de sua vida. Sua consciência, ao contrário, cumpre mal o seu papel, não localizando corretamente a referência temporal.

Agora o sinal está verde. É preciso decidir. Atravessar a rua ou voltar para casa? Tivesse um celular, o problema estaria resolvido. Enquanto permanece no impasse, você abre um dos cadernos, folheia aleatoriamente algumas páginas para talvez, com isso, divagar o pensamento à procura de uma solução. O tempo passa e o sol fica cada vez mais forte. Já não há mais sombra para protegê-lo. O suor esquenta-lhe o corpo. Pernas e braços começam a desfalecer-se. A vista embaça. Água. Precisa de um pouco d’água. Urgente. Somente depois vai decidir se o mar ou se a casa.

Nesse momento, algo o faz lembrar-se do último parágrafo de seu romance. Há algo de errado nele. O editor não vai mais telefonar. Mas os editores não leem o livro todo! Apenas o primeiro e o último parágrafo e alguns aleatoriamente colhidos nas páginas internas do livro. Será que ele vai notar o erro? Sim, sem dúvida. Não vai mais telefonar. Para o seu desespero. Sem praia. Sem água. Sem editora. E pior, sem nome.

Logo você percebe que seus pés já não podem mais se mover. Não se surpreende com isso. Afinal, é mesmo difícil acreditar que pudesse ir tão longe. Um certo conforto toma-lhe conta do corpo. Parece não haver mais fraqueza nem cansaço, nem calor. O suor evapora e já não o incomoda. Lembra-se ainda da família e dos amigos. Não resiste mais. O pensamento está quase vazio, a sirene de uma escola qualquer indica ao longe a saída dos alunos, as ondas do mar ainda faíscam para você. Depois, o espaço ao redor se encolhe até restar do mar uma única minúscula chama. Você se fixa nela como ponto de apoio para então sentar-se ao chão. Encostado no muro, braços caídos, sente a última brisa.

* Esta curta narrativa, publicada originalmente na referência indicada logo abaixo, sofreu algumas alterações para este blog.

[Para citar este artigo: Merçon, Francisco. A Praia. Carvalho, Almyr (dir.) A Palavra, Alegre-ES, nº 197, dez. 2014. Coluna Pensar por escrito, p. 14.]