por Francisco Merçon

“Aprendemos a acessar a tecnologia,
[…] mas desaprendemos a acessar a vida”
(Viviane Mosé)
Instantes depois de acordar, já estava na cozinha preparando o café da manhã. Inseriu em sua cafeteira elétrica o refil com o aroma de café preferido, acrescentou água no compartimento apropriado, depois apertou o botão e pronto, o café sairia quentinho em questão de segundos. Enquanto isso, retirou o pão de queijo instantâneo que acabara de sair do forno elétrico. Terminado o café, em poucos minutos já se encontrava em seu local de trabalho. Tivera sorte, pois, mesmo estando com lotação máxima, o trem que o transportou de uma estação a outra andou sem maiores problemas. O dia prometia ser tranquilo, já que, para seu trabalho de diagramador, tinha uma máquina poderosa, que nunca o deixava na mão: um Apple, que dispensa maiores apresentações.
Quem é ele? Pouco importa. O importante, nessa pequena narrativa criada exclusivamente para os fins deste ensaio, é apenas ressaltar como, sem nos darmos conta, estamos habituados a um mecanismo poderoso de controle de nossas vidas, independentemente da situação em que nos encontramos: preparando o café da manhã, utilizando qualquer meio de transporte ou trabalhando com o computador.
Em todas as três situações acima descritas, os objetos estão a serviço da economia do tempo, bem precioso da sociedade contemporânea. Mas, por outro lado, habituamo-nos a eles como se fossem naturais. E é exatamente aí que passam a nos controlar, condicionando-nos a esperar deles sempre uma resposta cada vez mais rápida às nossas demandas. O nosso comportamento é, assim, alterado sem que nos demos conta.
Quais os problemas que isso pode acarretar? Alguns deles foram muito bem explorados por Zygmunt Bauman e Tim May, no livro Aprendendo a pensar com a sociologia. Eu gostaria de relatar uma experiência recente que vai na contramão desses problemas. Os protagonistas dessa experiência são eu e meus alunos dos cursos de Jornalismo e Publicidade e de Serviço Social da UFES, durante um curto período de dois meses em que lecionei como professor substituto dessa instituição.
Quando começaram as aulas, soube que os alunos só estariam dois meses comigo, e não quatro, como é de se esperar que seja o tempo de um semestre letivo. As razões para isso são sempre as mesmas, a dificuldade que os mecanismos de greve têm para serem articulados em defesa de interesses legítimos sem, no entanto, prejudicar professores, alunos e servidores. Dessa vez, novamente os maiores prejudicados foram os alunos, já que tiveram apenas dois meses de aula.
Para preparar-me para essas aulas que, em resumo, eram de Língua Portuguesa e Prática de Redação, procurei inteirar-me de uma nova realidade para mim. O Jornalismo e a Publicidade me eram mais familiares graças à própria formação em semiótica que obtive na Universidade de São Paulo (USP). Procurei, também, fazer algumas leituras de sociologia, campo em que me senti mais à vontade para intermediar minha aproximação com o Serviço Social, área completamente desconhecida por mim – foi pensando nisso que adquiri o livro de Bauman & May acima mencionado.
A experiência que tive com os alunos desses cursos me fez pensar no seguinte: muitas vezes, ao lidar com seres humanos, exigimos deles respostas automáticas e previsíveis, tal como ocorre quando lidamos com determinadas ferramentas como as que enumerei na curta narrativa que abre este texto. Mas quando se trata de relações humanas, ao contrário, não se pode exigir que pessoas sejam previsíveis, já que cada uma é, antes de tudo, um universo de possibilidades a ser explorado e conhecido. Ao menos deveriam sê-lo, e se não o são é porque há algo de errado. Mas também há algo de errado em nós mesmos quando as abordamos como se fossem máquinas. Decidi, então, aproximar-me desses alunos e tentar conhecê-los em suas particularidades, o que não foi difícil, já que o envolvimento de todos superou barreiras que eu imaginava instransponíveis em tão pouco tempo. Além disso, como linguista, a linguagem me forneceria elementos concretos para isso.
Ao fazer um balanço desse período em que estivemos juntos, cheguei à seguinte conclusão. No fundo, é um verdadeiro drama, no sentido teatral do termo, que se passa na relação entre professor e aluno. Com a particularidade de ambos se comportarem ao mesmo tempo como atores e expectadores da trama encenada. Ou seja, tem ao mesmo tempo um pouco de ficcional e de real na relação. E quando a peça chega ao fim, se tiver sido bem encenada, tem-se a sensação de que valeu a pena. E “bem encenada”, aqui, não tem nada a ver com a representação de papéis segundo regras de um modelo pré-estabelecido (e, talvez, nesse aspecto, o ambiente em sala de aula se assemelha um pouco ao teatro contemporâneo); tem antes a ver com o fato de se sentir, de algum modo, transformado pela experiência vivida durante o transcorrer da peça.
No último dia de aula, já tendo feito uma leitura, ainda que superficial, da maior parte dos trabalhos de conclusão da disciplina, senti-me duplamente homenageado por esses alunos: fui surpreendido por festas de encerramento das disciplinas, com direito a bolo, salgadinhos e doces deliciosos, refrigerantes, mas fui surpreendido também pela qualidade dos textos produzidos, muito superior aos que foram produzidos na primeira semana de aula. Não há sensação melhor para um professor que ser homenageado pelos alunos de todas as turmas por que passou, não há alegria maior que olhar nos olhos de cada um deles e ver um brilho que traduz uma satisfação com as experiências vividas em sala de aula. No fundo sabem bem que deram um passo adiante nessa longa e rica caminhada que é a formação acadêmica. Que todos conservem esse brilho nos olhos, pois é ele que lhes dará a força de que precisam para superar todos os obstáculos que surgirem na vida.
[Para citar este artigo: Merçon, Francisco. Acessando a vida. Carvalho, Almyr (dir.) A Palavra, Alegre-ES, nº 189, abr. 2013. Coluna Pensar por escrito, p. 14.]